Na segunda parte do bate-papo com o planner – e autor do livro Planejamento Estratégico Digital – Felipe Morais, os temas abordados são os possíveis caminhos para o twitter, a presença das marcas nas redes sociais e os próximos passos do marketing digital: a TV digital e a comunicação móvel.
Uma das ferramentas que mais ganham popularidade na internet é o twitter. Você consegue identificar a razão (ou razões) desse fenômeno de 140 caracteres?
As pessoas gostam de falar e ser ouvidas. As Redes Sociais permitem isso há um tempo, mas o Twitter ganhou muita força por causa do celular. As pessoas podem postar “estou indo ao Shopping Morumbi” no caminho do shopping.
É possível fazer isso no Orkut, Facebook, Hi-5, Sonico também, mas o Twitter é mais rápido. Os meios de comunicação usando essa ferramenta também ajudaram no seu crescimento, as pessoas começaram a seguir a Folha Online no Twitter; descobriram que um amigo tinha Twitter, começaram a seguir; esse amigo seguia pessoas legais, eles começaram a seguir e assim foi.
Eu recebo em média 5 novos seguidores no meu perfil (@plannerfelipe) por dia. Quando escrevo algum artigo chego a receber uns 15. Uma vez, escrevi sobre o poder do Twitter no site CHMKT, em um sábado de noite e recebi 70 novos seguidores no domingo!
As Redes Sociais estão deixando as pessoas muito vulneráveis e isso é preocupante, mas por outro lado elas querem isso, querem ser seguidas, querem se sentir queridas. O Twitter permitiu isso e, agora, é um caminho sem volta. Não vejo uma outra ferramenta ter esse sucesso, mas também, em 2004, ninguém achava que o Orkut ia perder o posto de grande projeto da web. Veio YouTube, Facebook, Twitter…
Ainda sobre o twitter, dias atrás conversei com um amigo que trabalha com marketing digital e ele prevê um cenário não muito otimista para o twitter. Na sua opinião, quais os caminhos possíveis para a ferramenta?
Eu penso o contrário. Vejo o Twitter como algo que veio para ficar. Claro que é preciso ter um modelo de receita, pois até agora investidores colocaram dinheiro no projeto – e sem retorno. É uma mídia com 40 milhões de pessoas ativas no Brasil – o MSN tem essa base e lucra muito alto -, acredito que quando o Twitter achar um modelo de receita tão efetivo como o MSN ele terá vida longa.
Não acredito em morte de mídias. Assim como a velha discussão de que a TV não matou o rádio e o DVD não matou o cinema, Facebook não matou o Orkut, o MySpace não matou o Facebook, o Gtalk não matou o MSN… o MSN matou o ICQ porque esse parou no tempo, mas agora quer voltar com tudo.
Por serem gratuitas, as pessoas tem perfis em várias Redes. Eu mesmo tenho perfil em várias (www.meadiciona.com/plannerfelipe).
Muito se fala sobre a necessidade de uma forte presença nas redes sociais como ponto chave para o posicionamento de marca, troca de experiências e evangelização dos consumidores, mas o que se vê, de fato, são séries de tentativas que derrapam. Quais são os pontos chaves para um relacionamento duradouro e que possam representar, de fato, algum retorno palpável para as marcas? Você pode nos citar alguns exemplos de empresas brasileiras que usaram as redes e que obtiveram vendas ou mesmo reconhecimento para as suas marcas?
O conceito de presença digital que expliquei acima tem em um dos seus principais pilares as Redes Sociais. Vivemos em um mundo que as pessoas acreditam 80% no que as outras dizem e apenas 20% no que veem na TV ou no Jornal.
Quando entramos na faculdade de publicidade, passamos 4 anos estudando muito sobre a profissão para entender que a melhor propaganda é o boca-a-boca – e as redes só potencializaram essa propaganda.
Antes, você era maltratado em uma loja ou ficava muito satisfeito com um produto e contava para 5 ou 6 pessoas – isso entre família e amigos. Hoje, você fala para milhares. Imagina uma pessoa com 800 seguidores no Twitter, 300 amigos no Orkut, 200 amigos no Facebook, com um blog que tem 3 mil acessos por mês. Imagine agora essa pessoa postando no seu blog que foi mal atendido pela loja X do Shopping Y e mandando esse link no Twitter, Facebook, Orkut. Agora imagina se 30% dos seus seguidores retransmitirem esse link (e pode acreditar, coisa errada eles retransmitem mesmo!!!). Tá aí o tamanho do problema da marca.
Uma empresa de cadeados para bicicletas perdeu milhões de dólares nos EUA por causa disso. Um jovem descobriu que com uma tampa de caneta ele poderia abrir o cadeado. Postou isso no YouTube e o vídeo viralizou. A marca não tomou nenhuma atitude e perdeu em poucos dias milhões de dólares em vendas.
A marca precisa ser TRANSPARENTE, HONESTA e entender que ela está nas redes para CONTRIBUIR E SE RELACIONAR e não apenas para vender. Marcas que entram em comunidades apenas para oferecer produtos são mal vistas. É preciso estar ali para conhecer o seu consumidor e se relacionar com ele.
As pessoas seguem pessoas para se relacionar e não para lhes vender coisas. As marcas devem seguir o mesmo princípio.
CONTEÚDO relevante é fundamental também. As pessoas seguem marcas ou instituições atrás de conteúdo. Se a marca não gera isso, ninguém vai seguí-la.
Sempre cito a Tecnisa como a melhor empresa com presença de web no Brasil. Em 2009 ela vendeu 2 apartamentos pela web e essas vendas viraram cases. O primeiro foi com a palavra “gravides” (com S mesmo) – que gerou uma venda de um apartamento de 350 mil reais. A outra ação foi a venda de um apartamento de 500 mil reais via Twitter. Hoje, 30% do faturamento da Tecnisa, que é uma das 5 maiores construtoras do país, é via web.
Temos duas marcas de muito destaque em mídias digitais, Fiat e Bradesco, muito disso por conta do perfil de seus diretores de marketing (João Ciaco e Luca Cavalcanti, respectivamente). Você poderia citar outras empresas brasileiras com esse perfil e dizer o que têm feito nesse sentido?
Na resposta acima citei a Tecnisa, pois acredito ser a melhor empresa que trabalha a web no Brasil. Poderia citar a Coca-Cola e as empresas da B2W (Submarino.com, Americanas.com, Shoptime.com), mas ainda vejo essas empresas investindo muito mais em mídia online do que na web, propriamente dito.
Vejo compras de espaços (banners) em home de portal, programas de afiliados, Links Patrocinados etc., mas pouca ousadia – como patrocinar um game, por exemplo.
Acredito que a web é excelente para o mercado de imóveis, alimentação, telefonia, educação, moda e automóveis, mas que sua utilização ainda está tímido no país frente às inúmeras possibilidades.
Você citou Fiat e Bradesco por terem diretores inovadores, que acreditam na web e eu concordo, mas “dói” saber que essas cabeças brilhantes investem em web, por ano, o que gastam em 15 dias na TV; dói mais ainda ver 95% dessa verba ir para grandes portais e links patrocinados. A web é mais que isso! É presença digital! Apesar de que tenho que dar os parabéns ao projeto Presença do Bradesco, criado para o iPhone. Muito inovador!
Defendo o aumento de verba para a web, e defendo que web não é apenas mídia e links patrocinados!
Existe uma leva de profissionais de comunicação e marketing que pregam o fim da publicidade tradicional e a migração de verbas para outros formatos – em particular o ambiente digital – e uma outra que considera que as coisas vão mudar muito pouco nos próximos 5 ou 6 anos. Qual sua posição nesse contexto e o que você imagina que irá acontecer no curto e médio prazo?
Não sou tão radical, mas a mudança é certa. Hoje há muito mais pessoas na TV do que na web, mas há mais pessoas na web do que em jornais e revistas. Não entendo como a verba para a web ainda é pequena, mas o mercado age assim por diferentes motivos, e não cabe aqui a discussão.
Os jovens são da geração Y, nasceram na web. São os chamados nativos digitais. Explique para um garoto de 15 anos que na idade dele (tenho 30) eu não tinha celular, iPod, Internet e câmera digital; que eu pagava conta no caixa e não pelo Internet Banking. Ele não vai acreditar.
Esse jovem com 15 anos será o decisor das marcas daqui a 10, 15 anos. Ele saberá que a sua geração é mais impactada pela web do que pela mídia tradicional e, aí sim, acredito na inversão de verbas, sendo 70% para web e 30% para o offline, e isso não é nenhuma futurologia: na Inglaterra, desde 2006, a web já é o carro-cehfe dos investimentos, mas infelizmente no Brasil as coisas demoram para acontecer. Que a web será o carro-chefe dos investimentos será – não sei se em 5 ou 6 anos, mas em 10, com absoluta certeza.
Última: fala-se muito na internet mas no formato mais tradicional que conhecemos, utilizando o computador como ferramenta, mas a discussão sobre suas variações – como a TV Digital e os meios móveis, como celulares, por exemplo – ainda não alcançaram grande relevância. Quais os possíveis cenários futuros para esse meios. Qual a melhor maneira de explorar cada um deles?
Presença digital! Esse é o futuro.
A TV Digital ainda não decolou no país porque alguém não quer. Temos tecnologia, mercado, potencial de consumo… mas acredito que em 3 ou 4 anos a TV Digital terá muito mais força do que hoje, inclusive para a interação onde as pessoas vão, sim, poder comprar produtos que estão sendo usados no programa, como por exemplo a camisa do galã da novela.
Já o celular, eu discordo, pois alcançou sim, enorme relevância. Em um país com 195 milhões de pessoas, temos 173 milhões de celulares. A penetração de Smartphones só cresce. Recentemente li uma matéria que a classe C está aumentando a compra de celulares com recepção de TV Digital. É a convergência de mídias. A classe AB prefere Smartphones pela facilidade de acesso a e-mails e internet, eles usam para trabalho, enquanto as classes CD, para diversão. Mas todos usam!
Vejo a convergência de mídia como algo que vai crescer muito no Brasil. Vejo cenários positivos e as marcas que abram os olhos: se a sua presença digital for fraca, a do seu concorrente talvez não seja.
Felipe Morais é publicitário, autor, palestrante, professor e blogueiro. Autor do livro Planejamento Estratégico Digital (Ed Brasport) e do Blog do Planejamento (plannerfelipemorais.blogspot.com). Mediador da 1ª rede para Planners Digitais no Brasil (pedigital.ning.com)














